Vizinhança

Horta comunitária transforma terreno baldio em refeitório de vizinhança

Por Marina Costa · 8 jun 2026 · 7 min de leitura

Atualizado em 10 jun 2026

Ilustração de horta comunitária com canteiros e moradores

O terreno ficava fechado há mais de oito anos. Cerca de arame, mato alto e o cheiro de lixo que ninguém mais recolhia. Na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, moradores passavam pela calçada todos os dias sem imaginar que aquele lote de quase 400 metros quadrados pudesse virar mesa de jantar para dezenas de famílias.

Tudo mudou quando a Dona Neuza, de 67 anos, cansou de ver crianças brincando perto do muro instável. Ela bateu de porta em porta, juntou assinaturas e convocou uma reunião na garagem do prédio ao lado. "Não queria palco político", ela me disse. "Queria comida boa e um lugar onde a gente se visse de novo."

Do papel à primeira muda

A reunião inicial reuniu 23 pessoas. Algumas desconfiavam: quem ia cuidar, quem ia pagar água, o que aconteceria se o dono do terreno aparecesse. Um morador, o engenheiro aposentado Seu Osvaldo, desenhou um plano simples de canteiros elevados e um sistema de irrigação com tambores reaproveitados.

Em março de 2026, o grupo conseguiu autorização informal da imobiliária que administra o lote — não um contrato definitivo, mas uma carta permitindo uso temporário enquanto o terreno não fosse vendido. Com isso, vieram as primeiras mudas de alface, couve, manjericão e tomate cereja doados por uma horta municipal do bairro vizinho.

"A gente não plantou só verdura. Plantou horário de encontro."

Escala de revezamento e regras simples

Hoje a Horta da Neuza — nome que pegou sem votação formal — funciona com uma escala semanal de revezamento. Cada família participante assume um turno de rega e limpeza. Quem não pode no dia avisa no grupo de mensagens com antecedência; sempre aparece alguém para cobrir.

As regras foram escritas em uma folha plastificada presa ao portão improvisado: proibido agrotóxico caseiro sem combinar, dividir colheita proporcional à participação, manter o compostor longe da calçada e respeitar horário de silêncio após as 20h. Parece burocracia, mas os moradores dizem que isso evitou briga antes que a primeira couve estivesse pronta.

Sábado de colheita

Todo sábado de manhã, a horta vira feira de vizinhança. Não se vende nada — a divisão é feita por família cadastrada. Quem tem mais boca em casa recebe cesta um pouco maior, mas ninguém leva sacola sozinho. Sobram folhas para o restaurante popular da esquina, que passou a aceitar doação em troca de marmita para os voluntários.

A Juliana, professora de 34 anos e mãe de dois, conta que a horta mudou a rotina além do prato. "Meus filhos agora sabem de onde vem a alface. E eu conheci gente do prédio que morava no mesmo andar há anos e nunca tinha falado." Ela não é exceção: vários moradores citaram o mesmo efeito colateral — vizinhança que voltou a existir.

O que ainda preocupa

A carta da imobiliária vence em dezembro. O grupo já está reunindo documentação para propor um termo de comodato mais longo com apoio de uma ONG de agricultura urbana. Há também o risco de vandalismo: em abril, alguém derrubou quatro canteiros durante a madrugada. A comunidade respondeu com mutirão no domingo seguinte e câmera emprestada por um comércio local.

Segundo a ONG Parceiros da Terra, que assessora o projeto, hortas assim surgem em média três vezes por ano em bairros centrais de São Paulo, mas poucas passam do primeiro ano por falta de acordo com proprietários. O caso da Vila Mariana é citado como exemplo de organização mínima que funciona: regras claras, liderança rotativa e transparência sobre o que cada um recebe.

Na última colheita de maio, a horta alimentou 38 famílias e doou 12 quilos de hortaliças para a cozinha solidária do bairro. Não resolve a fome da cidade, nem pretende. Mas naquele quarteirão, um terreno baldio deixou de ser problema e virou resposta — temporária, frágil, mas real.