Comunidade

Rodas de conversa em Recife reúnem gerações na praça

Por Ana Luísa Ferreira · 1 jun 2026 · 7 min de leitura

Ilustração de moradores em roda de conversa na praça

Às 17h30 de uma quinta-feira, a Praça do Arsenal começa a mudar de dono. Os turistas que fotografam o Marco Zero vão embora, os vendedores ambulantes recolhem as bancas e um grupo de moradores chega com cadeiras plásticas, um banco de madeira e uma garrafa térmica que nunca falta. Em poucos minutos, forma-se um círculo no centro da praça. Não há palco, não há microfone, não há inscrição.

A roda de conversa nasceu em 2024, depois que o bairro perdeu o único centro comunitário do quarteirão para reforma que se arrastou além do prazo. A professora aposentada Dona Zefa, de 71 anos, convocou os vizinhos com um cartaz feito à mão: "Vamos falar da cidade nós mesmos?" Na primeira reunião, vieram sete pessoas. Hoje, em dias de boa temperatura, o círculo passa de trinta.

Ritual de quinta-feira

Não existe pauta rígida. Alguém propõe um tema — segurança, memória do bairro, transporte, lixo — e quem quiser fala. Há uma regra básica acordada no início: não interromper, não levantar a voz, respeitar quem prefere só ouvir. Parece simples, mas segundo participantes foi o que manteve o grupo unido quando os assuntos ficaram quentes.

O Seu Manoel, ex-pescador de 78 anos, raramente perde uma quinta. "Aqui eu conto como era o cais antes do viaduto", diz. "Os meninos gravam no celular às vezes. Fico feliz." Já a estudante de arquitetura Camila, 22 anos, começou a ir por curiosidade e ficou para ouvir histórias que não aparecem em aula. "É arquivo vivo", ela resume.

"Não resolvemos a prefeitura, mas resolvemos o silêncio entre vizinhos."

Memória, reclamação e projeto prático

Nem tudo é nostalgia. Em março, a roda discutiu iluminação precária de uma travessa e produziu um ofício coletivo entregue à câmara de vereadores. Em maio, o tema foi lixo após festa — o grupo organizou mutirão no sábado seguinte com 15 pessoas. São vitórias pequenas, mas visíveis.

Também há desacordo. Um debate sobre comércio na praça dividiu opiniões entre quem quer mais movimento e quem defende silêncio à noite. A moderação informal ficou com a Dona Zefa e com o advogado aposentado Seu Raimundo, que alternam em puxar a palavra quando o tom sobe. "Não somos terapia nem audiência pública", explica Zefa. "Somos vizinhança aprendendo a conversar de novo."

A antropóloga Patrícia Lins, da UFPE, acompanha o grupo como observadora desde o início. Para ela, rodas assim recuperam uma função que espaços públicos perderam com a urbanização acelerada. "A praça volta a ser ágora — não no sentido romântico, mas como lugar onde conflito e afeto coexistem sem precisar de aplicativo", afirma.

O que a roda não é

Participantes são claros sobre limites: não há coleta de dinheiro, não há candidatura política organizada, não há lista de presença obrigatória. Quem chega pela primeira vez é recebido com café e explicação rápida das regras. Crianças brincam ao redor enquanto adultos falam — barulho aceito como parte do cenário.

No inverno pernambucano de 2025, a chuva derrubou a frequência por três semanas. O grupo testou encontro em uma varanda comunitária e decidiu voltar à praça assim que o tempo firmou. "Lugar importa", diz Camila. "Na varanda cabíamos menos gente e sumiu o turista, o pescador, a mãe que passa com carrinho de bebê."

Na quinta em que estive presente, o tema foi a demolição de um casarão histórico duas ruas acima. Ficou acordado registrar depoimentos em áudio para enviar a um coletivo de patrimônio cultural. Ninguém prometeu salvar o prédio. Mas, pela primeira vez, moradores de idades diferentes souberam que compartilhavam a mesma preocupação.

Recife tem muitas praças e muitos problemas. A roda da Praça do Arsenal não escala sozinha, não substitui política pública e não atende quem trabalha demais para aparecer às 17h30. Ainda assim, oferece algo raro nas cidades grandes: um cantinho — a palavra importa aqui — onde a conversa não precisa de convite formal para começar.