Bairro

Feira de rua em Belo Horizonte resiste às mudanças do bairro

Por Rafael Mendes · 5 jun 2026 · 6 min de leitura

Ilustração de feira de rua com barracas e moradores

São seis e meia da manhã de um domingo qualquer na Rua da Bahia, região central de Belo Horizonte, e o barulho já é outro. Caminhões de entrega ainda passam ao longe, mas aqui o ritmo é de carrinho de mão, lona sendo esticada e o primeiro café coado em lata térmica. A feira de rua existe há mais de trinta anos — antes do prédio alto do fim do quarteirão, antes do supermercado 24 horas, antes da ciclovia que desviou parte do trânsito.

A Dona Cida, 58 anos, monta a barraca de frutas da família desde que era adolescente. "Meu pai começou com duas caixas de banana", ela conta, sem parar de arrumar tangerina. "Hoje a gente sustenta oito pessoas entre venda e distribuição." A feira não é cartão-postal nem destino turístico: é economia de bairro, com preço negociado e cliente que conhece o nome de quem vende.

Obras, prédios novos e menos lugar para estacionar

Nos últimos dois anos, o entorno mudou rápido. Uma obra de drenagem fechou uma das vias de acesso durante meses. Dois edifícios residenciais substituíram casas antigas, trazendo moradores novos — alguns reclamam do barulho dominical, outros passaram a comprar na feira pela primeira vez.

A associação de feirantes negociou com a prefeitura um esquema de montagem mais cedo e uma sinalização temporária para carros de clientes. Não foi simples: houve reunião com moradores, ajuste de horário e promessa de varrição reforçada após o encerramento. "A gente sabe que incomoda quem quer dormir", admite o Seu Geraldo, que vende queijo e ovos. "Mas também incomoda pagar R$ 12 no quilo de tomate no mercado quando aqui custa sete."

"Feira não é só compra. É onde a gente descobre que o vizinho ficou doente e precisa de uma mão."

As barracas que ficaram

Em 2026, restam 34 barracas fixas e cerca de uma dezena de rotativas. Algumas especializaram: uma vende só tempero, outra foca em folha e hortaliça orgânica de produtores da região metropolitana. A feira perdeu espaço para quem vendia roupa usada — a prefeitura restringiu esse tipo de item em 2024 — mas ganhou força em alimentos frescos.

O Antônio, entregador de aplicativo que mora no bairro Santa Efigênia, faz questão de passar na feira antes do turno. "Compro fruta para a semana e já ouço o que está pegando na região", diz. Ele cita fechamento de comércio na avenida principal e uma nova linha de ônibus como assuntos que soube ali, não no jornal.

Para a pesquisadora Helena Moura, da UFMG, que estuda comércio de rua, feiras como essa funcionam como "termômetro informal" do bairro. "Quando a feira enfraquece, geralmente algo na rede de proximidade já está rachando — renda, segurança, confiança entre moradores", explica. O caso da Rua da Bahia, segundo ela, mostra resiliência, mas não garantia de permanência.

Licença, concorrência e esperança

A licença anual da feira vence em agosto. Feirantes preparam documentação e um relatório de impacto econômico local com ajuda de um contador voluntário. Estimam que movimentam juntos cerca de R$ 180 mil por mês — número que pretendem apresentar à prefeitura como argumento de permanência.

Enquanto isso, a concorrência dos aplicativos de entrega bate à porta. Alguns clientes antigos sumiram, mas outros voltaram depois da pandemia com hábito de comprar local. A Dona Cida resume: "App não pergunta como foi sua semana. Aqui pergunta."

No domingo em que acompanhei a feira, choveu por vinte minutos no meio da manhã. Barracas se protegeram com lonas, clientes se abrigaram sob os toldos e a venda continuou. Ninguém parecia surpreso. Feira de rua, em Belo Horizonte ou em qualquer cidade, sempre foi negócio de quem sabe improvisar — e de bairro que ainda quer ter onde encontrar o outro.